Livro explora as múltiplas faces de Nossa Senhora na cultura popular brasileira

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Imagem: oglobo.globo.com, via imagem de destaque da reportagem.

O historiador e escritor Luiz Antonio Simas lançou o livro “Tantas Marias: Nossa Senhora na cultura popular” em 12 de outubro de 2026, Dia da Padroeira do Brasil. O evento ocorreu no Bar do Bode Cheiroso, no Maracanã, Rio de Janeiro, com uma aula pública seguida de sessão de autógrafos. A obra é um ensaio que investiga como a Virgem Maria é representada e reverenciada no cotidiano brasileiro, abordando títulos como Nossa Senhora da Glória, de Nazaré, das Dores, de Fátima, da Penha, dos Navegantes, da Conceição e, centralmente, Aparecida.

Simas afirma que o livro não é uma biografia baseada nos Evangelhos e nem debate a veracidade de aparições ou milagres. O ponto de partida foi material acumulado durante pesquisas anteriores, que o levaram a concluir que Maria merecia uma análise focada no “chão da cultura popular”. O autor explica que, na teologia católica, Maria ocupa um lugar singular, considerado “hipervenerável”, acima dos santos, atuando como uma “supermediadora” entre os fiéis e o divino. Essa função é ilustrada, segundo ele, pela intercessão direta do personagem João Grilo com Nossa Senhora na obra “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna.

A devoção a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, tem origens no século XVIII. Segundo a tradição católica, a imagem foi encontrada em outubro de 1717 por três pescadores no Rio Paraíba do Sul, em Guaratinguetá, São Paulo. Após reunir o corpo e a cabeça da escultura retirada das águas, os homens teriam conseguido uma pesca abundante, episódio associado ao início da devoção. A imagem só foi proclamada padroeira do país por decreto do Papa Pio XI em 1930, substituindo São Pedro de Alcântara, padroeiro ligado ao período monárquico. Simas comenta que a República pode ter tido a necessidade de criar novos símbolos nacionais, e que “Aparecida sintetiza uma certa ideia de Brasil”. O feriado nacional de 12 de outubro foi instituído cinquenta anos após o decreto papal, em 1980, pelo então presidente João Figueiredo.

A tonalidade escura da imagem de Aparecida é um dos aspectos abordados. Pesquisadores e historiadores apontam que a cor pode estar relacionada a fatores históricos e materiais. Uma hipótese considera o contato prolongado da escultura com a água e a lama do Rio Paraíba do Sul antes de ser encontrada, o que pode ter causado a perda da pintura original e alterado sua superfície. Outra explicação frequente é a exposição secular à fumaça e à fuligem de velas e candeeiros em ambientes de oração onde a imagem ficava exposta, o que teria intensificado sua coloração.

A presença de Maria transcende os limites do catolicismo institucional e se entrelaça com outras expressões religiosas brasileiras. Simas cita o exemplo do Seu Sete Rei da Lira, entidade famosa da umbanda do Rio de Janeiro, que se declarava devoto da Virgem Maria e católico romano. O autor também menciona sua avó, que era ialorixá e devota de Nossa Senhora do Carmo, exemplificando o sincretismo presente na religiosidade de muitos brasileiros. O livro, portanto, mapeia essas múltiplas representações, mostrando como a figura de Maria se adapta e é reinventada nas diversas camadas da cultura popular.

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